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Por Queila Ferraz Monteiro
É sabido que cada tecido tem a sua história; e o que fascina o estudante que se inicia no universo dos “panos” é a relação histórica que determina as condições de sobrevivência dos povos no contato com a natureza, fazendo nascer daí a moradia, a alimentação e a vestimenta.
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Nessa relação, a casa e o tecido seguem caminhos paralelos: os corpos não sobrevivem estando nus, ou dormindo ao relento.
Dessa relação nascem ainda uma culinária e uma religião, pois é preciso agradecer a Deus “o pão nosso de cada dia”. Nasce também um sistema político, capaz de proteger a terra conquistada e garantir esse pão.
Explicar a relação entre a evolução do tecido, com as culturas primitivas, e a formação dos grandes impérios da Antiguidade é o motivo que me coloca aqui, agora, neste momento da minha trajetória acadêmica.
A evolução do têxtil, juntamente com a da arquitetura, marcou e documentou a trajetória das culturas humanas rumo aos sistemas sociais que garantem a sobrevivência dos seres humanos contra a selvageria dos animais.
Nos tempos primitivos, sobrevivia quem conseguisse comer; e com a pele dos animais caçados, vestiam-se os corpos, para resistir às intempéries e poder buscar lugares de terras férteis e cultiváveis em que a caça – agora não mais apenas para alimento – passou a pertencer ao domínio do sagrado. O sacrifício do cordeiro foi o primeiro grande marco da civilização: era necessário cobrir o sacerdote com a pele do animal, ofertar seu sangue sacrificado à divindade, para pedir bênçãos e colheita farta.
O pêlo do animal tornou-se um material nobre para cobrir o corpo. Seu uso simboliza sacrifício: se não é para Deus, é ofensa cultural ancestral, digna de ser gritada, hoje, em praça pública.
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James Laver fala que o drapeado documenta a evolução da civilização, por que o volume e o brilho do tecido numa roupa foi, e ainda é, sinal de status e poder. O desenvolvimento da indumentária se deu por um caminho binário: vestimentas do norte e do sul, do Ocidente e do Oriente, da planície e da montanha, roupas quentes e frescas, tropicais e árticas e finalmente, masculina e feminina.
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O Homo Sapiens se vestiu com a pele do animal caçado para alimentar a si e sua família. Tratar a pele para vestir o corpo era função da mulher, que através da mastigação, tornava a pele mais macia. Foi ainda na Pré História que surgiu o curtimento feito com ácido tânico, extraído da casca do carvalho e do salgueiro. Esta técnica é usada até hoje. É importante apontar para o fato de que ela documenta um modo de vestir de povos ainda nômades e habitantes de regiões de florestas densas, onde existem animais e árvores de grande porte como o carvalho. Toda essa tradição ainda existe e é assim que se vestem os esquimós.
O panejamento que acompanhou o deslocamento do Sapiens rumo às regiões de clima temperado foi a feltragem, desenvolvida com fibras animais e vegetais extraídas da casca de amoreira e figueira. No Egito essa técnica deu origem ao papiro e propiciou um têxtil intermediário entre a esteira e a tecelagem.
A tecelagem exigiu abrigo fixo, perto de terras férteis e de bons pastos para as ovelhas.
O linho, o cânhamo, o algodão e a lã, documentam a passagem das culturas humanas do estado nômade para o estado sedentário e agricultor.
Fixos em suas terras, com as fronteiras demarcadas, plantações e animais guardados e protegidos, os Sapiens já humanizados, começaram a guerrear para garantir seu território e conquistar mais.
Vestir o chefe do povo, o chefe da guerra, o chefe da fé e o chefe da família exigiu que de desenvolvessem modos eficientes de tosquiar o velo, fiar a fibra e dos fios tecer o tecido.
Primeiro o tecido, depois a roupa; sarongues, saias, mantos e calças, e por último, os sagrados véus, que são sagrados até hoje, por que sagrados são: o puro linho, o puro algodão, a pura seda e a pura lã.
Roupas curtas, longas, leves, pesadas, com manga, com franja, com brilho e por fim, as calças, roupa de bárbaro, que era vista como sinal alarmante da presença do estrangeiro invasor.
Resto de nômade, bárbaro sem terra, ainda habitava uma cabana que se transportava no lombo de seu cavalo.
Bárbaro isso, coisa de bárbaro, o homem de calça, aquele estrangeiro, que só balbucia a, precariamente, língua local. Atravessando o Vale da Sombra da Morte, entre o Tigre e o Eufrates, em seu cavalo árabe, vinha em caravanas trazendo a tão rara, fina e brilhante seda da China.
Quem era ele? Algum faraó? Não, era um persa, desses mercadores, que no Irã ou no Iraque, até hoje, estão lá.
A essa altura, já História, os homens puderam, não mais nômades, rendendo graça aos deuses, tornar-se sedentários e dedicar-se à agricultura.
Cultivando, plantando, colhendo abundante vegetação capaz de ser transformada em fibras fiáveis, fizeram surgir os tecidos de fibras vegetais nas planícies férteis do Nilo e da Índia.
As ovelhas, além de fornecer o leite para a amamentação das crianças e para a fabricação do queijo, deixavam-se tosar e, de seu pêlo, surgiu a lã – sagrada, no abrigo do homem montanhês, como nos conta a Bíblia na história de Davi, menino pastor, puro, simples, humilde e dócil como as ovelhas que pastoreava, e que conseguiu defender o povo judeu dos reis mercadores que cruzavam a Terra Prometida, a caminho do mar.
Mar em que se encontravam as águas quentes do fértil delta do Nilo, rico em algodão, e as do mar Mediterrâneo, pelas quais os mercadores vindos da Índia, com seus barcos cheios de especiarias e corantes, chegavam aos portos de Alexandria, para ali trocarem o que traziam pela lã dos persas, pelo algodão egípcio e a seda chinesa.
Diferente da moda, o estudo dos têxteis deve partir da evolução da indumentária masculina.
Os chefes de estado sempre usaram os tecidos mais preciosos para representar seu poder.
Os homens que falavam com os deuses sempre se vestiam e se adornavam com a pele e a pluma do animal, tido como o melhor e mais veloz mensageiro entre o homem e as forças da natureza.
A roupa do guerreiro era construída com a melhor tecnologia disponível, para resistir à luta e proteger o lutador em terras distantes, onde a natureza também era uma hostil inimiga a ser vencida.
O soldado romano sintetiza claramente essas características: ele foi o maior emblema do guerreiro da Antigüidade e, com seu escudo, seu coturno de couro e seu elmo, só não venceu a neve dos bárbaros germânicos.
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A Bíblia é um livro sagrado, em cujos cantos e contos está a gênese da história da humanidade e de sua luta para dominar o planeta e conviver, ora em paz, ora de forma predadora, com as belezas e riquezas “criadas em sete dias”. Teimamos em não aceitar, mas esse primeiro documento nos traz não só conceitos religiosos, como ainda a evolução do homem no seu processo civilizatório, primeiro com o corpo coberto por armaduras de couro, lã e placas de metal e, depois, vitorioso em suas guerras, trajando-se soberbamente com sedas orientais, tingidas com corantes minerais extraídos dos mais raros corais do mar Vermelho, turquesas indianas e rubis africanos.
Minha intenção final, aqui, é apontar para esse rico veio documental que está nas Sagradas Escrituras, como material que comprova a importância da evolução têxtil nos modos de viver da humanidade e que, hoje, devem se aliar às questões da ecologia, para que possamos continuar a usufruir, de forma harmoniosa, daquilo que, em SETE DIAS, foi criado para nós de forma tão sagrada.
Para ver as imagens aqui apresentadas com legenda e outras sobre a pré-história clique aqui.
A EVOLUÇÃO DO TECIDO NA ANTIGUIDADE – Parte 1
FONTES BIBLIOGRÁFICAS
BOUCHER, Francois. – 20,000 Years of Fashion. Nova Yorque: Expanded Edition, 1987.
FILHO, Alcides Goularti, A indústria do Vestuário. Florianópolis, editora Letras Contemporâneas, 1997.
LAVER, JAMES. A Roupa e a Moda, uma história concisa. São Paulo, Companhia das Letras, 1990.
LIPOVETSKY, Gilles. O Império do Efêmero. São Paulo, Companhia das Letras, 1989.
LURIE, Alison. A Linguagem da Roupa. Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1996.
NERY, Marie Louise. A Evolução da Indumentária. Rio de Janeiro, Editora Senac, 2003.
O’HARA, Georgina. Enciclopédia da Moda. São Paulo: Companhia das Letras, 1992
RIVIÈRE, Margarita. Diccionário de la Moda, los estilos del siglo XX. Barcelona, Grijalbo Mondadori, 1996.
TREPTOW, Doris, Inventando Moda. Brusque, Sebrai/SC,2004.
VINCENT-RICARD, Françoise. As Espirais da Moda. Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1989.
WILSON, Elizabeth. Enfeitada de Sonhos. Lisboa, Edições 70, 1989.www. omelhordamoda.com.br,>acesso 9 de junho de 2006
www.modabrasil.com.br,> acesso 9 de junho de 2006http//www. Abravest.org.br.abravest/censo.> acesso 28 de julho.2005
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Queila Ferraz Monteiro é estudiosa de História da Moda, é consultora de design e gestão industrial para confecção e Professora de História da Indumentária e Tecnologia da Confecção dos cursos de moda da Faculdade Belas Artes, Senac Moda e Universidade Anhembi Morumbi. queilamoda@yahoo.com.br .





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Pingback por Fashion Bubbles » A EVOLUÇÃO DO TECIDO NA ANTIGUIDADE - Parte 1 — Agosto 14, 2006 @ 12:43 pm
muito interessante o texto. conhecer a evolucao dos tecidos enriquece as criacoes e aumenta o as possibilidades de se trabalhar as pecas em cada estacao.
bjos
Comentário por Lara — Agosto 14, 2006 @ 3:29 pm
Muito instrutivo o texto, muito obrigada, mesmo sem saber você me ajudou muito com ele , pois me deu uma base muito boa para um trabalho que eu preciso fazer!!
sinceramente..a pagina esta de parabens…
beijos..
Comentário por krysynha_ — Novembro 13, 2006 @ 9:04 am
O que mais você pode me dizer sobre “é preciso agradecer a Deus o pão nosso de cada dia”?
Cordial abraço.
Comentário por Junior — Novembro 17, 2006 @ 9:20 am
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Pingback por Historia da Moda » A EVOLUÇÃO DO TECIDO NA ANTIGUIDADE - Parte 1 — Janeiro 22, 2007 @ 5:41 pm
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Pingback por Fashion Bubbles » A evolução do tecido na antiguidade - Parte 1 — Março 5, 2007 @ 6:29 pm
valae esse site me ajudou muito no trabalho….
Comentário por barbara — Maio 30, 2007 @ 10:12 am
Muito bom este texto…sou estudante de Moda e me identifiquei com o final que fala da bíblia…quando leio, fico imaginando as descrições das roupas…e me fascina esta parte histórica…
Comentário por Marlova — Outubro 11, 2007 @ 4:58 pm
Olá
Sou educadora de um grde Colégio de SP ( Drummond), sendo assim estaremos neste mês realizando um grde evento, cujo nome é FIETEC, que neste ano vem trazendo as evoluções em tds os aspectos e modalidades e a minha sala de aula ficou com o tema sobre moda, tecidos , customizações e evoluções nesta área. Gostaria mt de poder contar com a ajuda de vcs…Se caso pudeem nos mandar folhetos sobre o trabalho de vcs ou entrarem em contato para uma possivel participação em nosso evento. Tenha certeza de que o retorno em relação a propaganda é grde, pois o numero estimado de visitates gira em torno de 10.000. Ficarei no aguardo de um retorno urgente !!!
Mil Beijos e mt obrigada pela atenção
Professoras do 3 ano
Ana Paula, Leia,Edjane e Márcia
Comentário por Ana Paula — Outubro 14, 2007 @ 6:57 pm
Acho que deveria conter mais informações sobre tecidos e retalhos de panos,para melhores conhecimentos.
Comentário por Paula — Novembro 13, 2007 @ 3:58 pm
[...] Como dar conta dessa empreitada? perguntava-se, apavorado, o fabricante brasileiro. Num momento de grandes transformações políticas e econômicas, a resposta veio rápida: Faculdades de Moda, com cursos que pudessem formar engenheiros, criadores, gestores, compradores e todo tipo de técnicos e tecnólogos necessários para suprir a cadeia de profissionais capazes de responder pela criação, desenvolvimento e comercialização, dentro desse contexto já inteiramente globalizado. Tecidos, máquinas, aviamentos, estilos e modelos de comercialização tinham de obedecer ao padrão dinâmico e funcional norte-americano, às exigências vanguardistas inglesas, ao padrão elegante e sofisticado italiano e ao inovador universo minimalista japonês. Esse foi o tempo das grifes e, também, do surgimento vanguardista das modas rebeldes para os jovens, que começavam a se impor como usuários. Fabricando suas próprias modas, eles acreditavam ser muito, mas muito diferentes de seus pais – àquela altura, nós, a geração dos fantásticos anos pós-JK. Hoje sou professora. Ainda atuo no setor de confecção: tenho trabalhado como consultora de estilo e gerência de produção de modas juvenis, conhecidas como modas teen ou modas de tribos urbanas. Mas apaixona-me investigar os meios que a cultura utiliza para divulgar seus padrões de elegância, que determinam a prática diária dos mais diversificados tipos de profissionais envolvidos com a moda, um dos setores mais produtivos da sociedade.Parte deste meu discurso é, obviamente, um fragmento amoroso e, antes de tudo, decorrente de uma condição particular de vida e de atividade profissional. Porém, como professora de cursos de moda nas disciplinas de História da Indumentária, Teoria da Moda, Tecnologia da Confecção e Evolução do Design de Moda, tenho observado o encantamento dos alunos dos cursos de pós-graduação em design têxtil com a relação antropológica da evolução têxtil com as culturas que as fazem brotar. A EVOLUÇÃO DO TECIDO NA ANTIGUIDADE – Parte 2 [...]
Pingback por Fashion Bubbles » A evolução do tecido na antiguidade - Parte 1 — Janeiro 28, 2008 @ 4:08 pm
Bom dia Keila.
Meu nome é Elisangela, estou no último módulo do curso técnico em administração e no final do curso temos que apresentar um TCC, o meu trabalho a criação de uma empresa, opitei pela empresa de roupa de cama, uma das partes do trabalho necessita colocar a história do material em questão.
Portanto estava na internet fazendo a pesquisa e achei o seu material achei muito interessante e gostaria de saber se você tem alguma coisa sobre esse assunto ou saiba onde eu posso encontrar este material?
Se você puder me ajudar por favor entre em contato comigo.
Obrigado
Elisangela
Comentário por Elisangela Pires — Março 13, 2008 @ 11:11 am
e tudo isso a evoluçao da mulher da antiguidade ao mundo globalizado !!!!!
Comentário por leonaardo teixeira da silva — Março 24, 2008 @ 9:32 pm
ola ta tdo bem komtigo.
bjx…
lol…. lol………
Comentário por Mariana silva fernandes — Dezembro 5, 2008 @ 1:35 pm
muito fixe bjs….
lol……… lol………… lol……
lllllllllllllllllooooooooooooooolllllllllllllll…………….
Comentário por Mariana silva fernandes — Dezembro 5, 2008 @ 1:36 pm
Parabéns pelo documentário A Evolução do Tecido na Antiguidade,
me ajudou bastante, tirando dúvidas sobre que cor de roupa usar no ano novo.
Depois de ler essa matéria vi que é uma tremenda besteira escolher cor de roupa,
o importante é o pensamento positivo e as ações realizadas.
Um abraço
Lucimeire
Comentário por Lucimeire — Dezembro 28, 2008 @ 9:55 am
gostaria de comprar retalhos para criar roupas de cama.
Comentário por irene — Março 2, 2009 @ 5:02 pm